Eco Balaio
22/04/2009 às 17:10
Dois pra lá, dois pra cá

É a expressão usada pelo ministro Minc para denotar o seu estilo de negociação. Uma mãozinha para os desenvolvimentistas, outra para o meio ambiente. Não sei se é influência do ministro, mas esse mantra está reinando solto em Brasília. O perigo é dar dois passos para frente e dois para trás. E ficar no mesmo lugar.

Vejam, por exemplo, a decisão recente do Ministério do Meio Ambiente de apertar o licenciamento ambiental para termoelétricas.  A partir de agora, as usinas só serão aprovadas se os empreendedores apresentarem plano de compensação das emissões de gases de efeito estufa.  Ponto para o MMA!  Uma decisão super comemorada...

Maaaaas, na mesma semana, surgiu uma emendazinha sorrateira na MP 425, que trata do Fundo Soberano, para aliviar o licenciamento das estradas. O ministro Minc já se posicionou favorável. E montou-se o circo de vaias, dá pra perceber pela quantidade de opiniões que apareceram na imprensa nas últimas duas semanas.

Pra quem não viu: a emenda, do deputado José Guimarães (PT-Ceará), visa "simplificar" o licenciamento ambiental de "investimentos já consolidados".  É impressionante como parlamentar adora expressões vagas... O que são investimentos consolidados?  Logo se percebeu que a proposta tinha endereço: as diversas estradas amazônicas que não têm asfalto, especialmente a BR-319, que atravessa o Amazonas.

Aí o legislador pensa assim: "a estrada já está aberta mesmo! Que diferença faz colocar o asfalto?".  Pois na Amazônia faz diferença, sim.  Quem dera o problema fosse só a vegetação derrubada para fazer a estrada em si.  O problema está no entorno.  Historicamente, as estradas de rodagem são grandes catalisadores de desmatamento.  Costumam ser devastados pelo menos 50 km de um lado e de outro.  E por quê?

1- Porque as dificuldades de locomoção na Amazônia são latentes.  E o povo adora se instalar na beira de estrada, pra morar, abrir um pequeno negócio etc. 2 - Fazendeiro também adora se instalar perto de estrada, diminui os custos de transporte até para quem está mais longe.  Cai o custo de produção agropecuária, aumenta a devastação.  3- O preço da terra no grande entorno sobe exponencialmente.  E aí vem o terceiro grupo de problemas: grileiros e especuladores, sedentos para tomar, comprar e vender terra desmatada.

Sob o prisma dos riscos socioambientais, estrada asfaltada é muito diferente de estrada aberta.  É outras história.  No frigir dos ovos, rodovia é mal negócio para a Amazônia.  Melhor seria priorizar hidrovias e ferrovias. Olha que brilhante: esses modais não estimulam devastação em todo o entorno, ou abertura de vicinais, como nas estradas.  Porque o trem ou o barco só pára nas estações. Então, não adianta se instalar no meio do caminho. Pena que as melhores ideias e a política nem sempre se encontram.






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Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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