Eco Balaio
14/01/2009 às 15:02
Chantagem energética

Na semana passada, ainda avoada com a volta das férias, deixei passar em branco a notícia do plano decenal de energia, que prevê mais que dobrar o número de termelétricas no país, triplicando as emissões de carbono no setor. Ainda vale retomar e olhar o acontecido mais de perto.

Faz parte do meu trabalho acompanhar esses desdobramentos o tempo todo, por isso acho que tenho algumas lembranças que talvez passem batido pelos observadores ocasionais. Eu me lembro, por exemplo, que no auge do debate sobre as usinas do rio Madeira, umas das mensagens do governo era a seguinte: "Ou fazemos as usinas, ou seremos forçados a apelar para termelétricas". Pois é, a licença saiu, a construção do complexo do rio Madeira vai de vento em popa, e mesmo assim o parque termelétrico será ampliado magnificamente.

Alguém poderia argumentar que um projeto hidrelétrico só não faz verão, frente às necessidades de energia em todo o país. Não é só o rio Madeira que vai salvar a pátria (mas não é isso mesmo que o governo apregoava, lá em 2006, 2007?). Mesmo assim, a verdade é que esse discurso acompanha todos os projetos hidrelétricos mais polêmicos do país, e até da energia nuclear, já que a estratégia de ameaça também marcou o auge da polêmica sobre Angra III.

Estou compartilhando aqui as minhas memórias para dizer o seguinte: embora pareça óbvia e elementar a correlação de forças (quanto mais hidrelétrica, menos termelétrica e vice versa), a realidade não se traduz assim necessariamente. O elemento decisivo é a política pública. É a decisão política de fazer o que parece mais razoável. E isso está longe de ser garantido.

Afinal, o governo não decidiu pela Plano Nacional de Mudanças do Clima? E depois não subverteu a idéia completamente nesse plano nacional de energia mega poluente? Parece esquizofrênico para o nosso raciocínio, mas raciocínio político são outros quinhentos...

Estamos engolindo com muita facilidade a estratégia da chantagem e com a mesma facilidade se engole a ideia do inimigo convencional: o "radicalismo ambiental". Vejam o editorial da Folha de S. Paulo, por exemplo: "os radicais do ambientalismo, quando bloqueiam a exploração racional da bacia amazônica, ajudam a despejar toneladas adicionais de gás carbônico na atmosfera". Será mesmo? Isso é tão discutível...

Grandes hidrelétricas têm grandes impactos ambientais e sociais, sim. E nesse país, quanto maior o interesse, maiores as forças para empurrar tudo isso para debaixo do tapete. Isso é radical?

E pra você, o que é radicalismo ambiental?






Comentários

20/01/2009 às 00:00
Rebeca - diz:
Muito, muito bom texto, Carol.A minha resposta sobre o radicalismo ambiental você ouviu num momento mais oportuno. ;-)bjo!



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Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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