Eco Balaio
10/12/2008 às 16:32
Ano novo, rixas velhas

O ano vai chegando ao fim, e dá uma vontade de fazer balanços. Para a Amazônia, 2008 termina com a excelente notícia das metas de redução do desmatamento, mas também com a re-edição de um velho e manjado conflito: ambientalistas X ruralistas. É curioso que no fim do ano passado, eu estava às voltas com uma reportagem enorme sobre a polêmica reforma do Código Florestal, lei máxima que rege a conservação no País.

Naquele momento, ruralistas que nunca cumpriram o que manda a lei queriam ser perdoados. E ambientalistas queriam a lei cumprida à risca, sem nenhuma flexibilidade. Agora a mesma polêmica volta, na mesma época, e sem nenhum avanço.

Essa é uma discussão um pouco pesada, cheia da linguagem técnica do "legalês", mas quero tirar esse momento para explicar porque ela é tão importante.

O Código Florestal é instrumento para garantir a harmonia entre a preservação dos ambientes naturais e as atividades produtivas. Protege uma série de princípios fundamentais, como a conectividade entre as áreas verdes (primordial para manutenção da biodiversidade) e a importância de se considerar a natureza na escala da paisagem e não como se todos os biomas fossem homogêneos do começo ao fim (não são, a biodiversidade tem os seus mistérios). Ainda considera os serviços ambientais, tão importantes para a qualidade da água e do solo no agronegócio.

Acontece que a valorização deses princípios por parte da opinião pública é muito recente. E o Código Florestal é de 1965. De lá pra cá, até incentivados pelos governos, os fazendeiros de norte a sul do País simplesmente ignoraram as regras. Chegamos à sitauação cúmulo em que, se o Código Florestal fosse aplicado de verdade, "metade da produção de café de Minas Gerais seria considerada ilegal", por exemplo, nas palavras do ministro Stephanes, da Agricultura.

Sthephanes quer anistia dos crimes ambientais contra áreas de preservação permanentes (APPs- lugares em que é proibido desmatar, mesmo em propriedades particulares, como as nascentes de rios, por ex.) até julho de 2007, para poder colocar a casa em ordem. Os ambientalistas não querem nem ouvir falar e as principais ONGs do Brasil, como Greenpeace, WWF, ISA e Amigos da Terra, chegaram a abandonar uma reunião com o ministério em que se discutiam as alternativas.

ONGs têm a sua legitimidade porque estão a serviço do interesse público. A quem elas estão servindo quando abandonam a mesa de discussão? De onde sairão as soluções, se não do diálogo? Sem prejuízo do espírito crítico, a hora é de abandonar a bateção de pé, a teimosia, e buscar as alternativas criativas. Do jeito que a coisa está, seria preciso derrubar áreas gigantescas de lavoura para plantar florestas. E isso é simplesmente inviável. Não se pode ignorar essa inviabilidade. O impasse é nosso ponto de partida. Para onde iremos a partir daí?

Esse não é um trabalho para o super-homem. É um trabalho do governo e também das ONGs, que recebem montanhas de dinheiro para isso mesmo. Vamos trabalhar, minha gente! É exatamente esse tipo de postura obtusa e pouco propositiva que confere aos ambientalistas a má fama que têm.






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Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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