Primeiro: é impressionante como a agenda da Amazônia é consensual, conhecida, consagrada. Bota dois ongueiros juntos e em menos de meia hora eles já terão formulado 10 ou 12 passos para o desmatamento zero, que serão (como mínimas variações) os mesmos apontados por todos os demais, incluindo-se os cientistas.
Quando a chamada "sociedade civil organizada" atinge esse grau de entendimento, de unidade, de integração, é um acontecimento relevante. Significa que a capacidade de pressão está qualificada.
O Plano Nacional de Mudanças Climáticas apresentado pelo MMA é mais um estopim, já que o catatau de 160 páginas não passa de uma listagem de todos os programas ou ações federais que remotamente se relacionam com o desafio climático. A sociedade esperava um projeto, e o que encontrou foi embromação. Os ânimos estão elevados.
A minha primeira aposta é que, em pouco tempo, a embromação no que diz respeito à Amazônia vai se tornar insustentável. Especialmente quando o País atravessa um momento decisivo para seu posicionamento quanto às mudanças climáticas, às vésperas da próxima Convenção do Clima na Polônia, em dezembro. Já na área de energia, o prognóstico não é nada bom...
E por quê? Simples: Diferentemente do debate sobre a Amazônia, as medidas mais evidentes para substituição de combustíveis fósseis não são consensuais. A Energia nuclear gera polêmica, os biocombustíveis geram polêmica, e as grandes hidrelétricas também. São três elementos fundamentais para o que o governo está disposto a oferecer no enfrentamento do problema do clima. E vão encontrar forte resistência.
Um dos efeitos colaterais desse boom de debates sobre aquecimento global é a tendência cínica de reduzir a questão ambiental à questão de clima. Então, quando o governo força a briga pelas hidrelétricas faraônicas na Amazônia, e os ambientalistas chiam, a resposta é algo do tipo: "Mas do que vocês estão reclamando? É energia LIMPA!" Como se meio ambiente se resumisse a um cálculo de carbono.
Por último, mas não menos importante, a jóia da coroa chamada Petrobras é intocável e vai continuar intocável por um prazo a perder de vista. A rigor, dá pra falar de desenvolvimento limpo com a euforia em torno do pré-sal? Não dá. E essa é uma briga que apenas se insinua. Conclusão: as minhas fichas estão na Amazônia. Num país pretensamente diferenciado em perfil energético, as armadilhas são muitas. A jornada é longa e promete muita turbulência.