Eco Balaio
27/10/2008 às 00:06
O que esperar da PNMC

Vou propor aqui um "exercício de futurologia" com base no que tenho acompanhado dos debates sobre a Política (Plano) Nacional de Mudanças Climáticas, em período de consulta pública até 31 de outubro.  Posso até estar errada, mas a intuição é forte e não posso resistir.

Primeiro: é impressionante como a agenda da Amazônia é consensual, conhecida, consagrada.  Bota dois ongueiros juntos e em menos de meia hora eles já terão formulado 10 ou 12 passos para o desmatamento zero, que serão (como mínimas variações) os mesmos apontados por todos os demais, incluindo-se os cientistas.

Quando a chamada "sociedade civil organizada" atinge esse grau de entendimento, de unidade, de integração, é um acontecimento relevante.  Significa que a capacidade de pressão está qualificada.

O Plano Nacional de Mudanças Climáticas apresentado pelo MMA é mais um estopim, já que o catatau de 160 páginas não passa de uma listagem de todos os programas ou ações federais que remotamente se relacionam com o desafio climático.  A sociedade esperava um projeto, e o que encontrou foi embromação.  Os ânimos estão elevados.

A minha primeira aposta é que, em pouco tempo, a embromação no que diz respeito à Amazônia vai se tornar insustentável.  Especialmente quando o País atravessa um momento decisivo para seu posicionamento quanto às mudanças climáticas, às vésperas da próxima Convenção do Clima na Polônia, em dezembro.  Já na área de energia, o prognóstico não é nada bom...

E por quê?  Simples: Diferentemente do debate sobre a Amazônia, as medidas mais evidentes para substituição de combustíveis fósseis não são consensuais.  A Energia nuclear gera polêmica, os biocombustíveis geram polêmica, e as grandes hidrelétricas também.  São três elementos fundamentais para o que o governo está disposto a oferecer no enfrentamento do problema do clima.  E vão encontrar forte resistência.

Um dos efeitos colaterais desse boom de debates sobre aquecimento global é a tendência cínica de reduzir a questão ambiental à questão de clima.  Então, quando o governo força a briga pelas hidrelétricas faraônicas na Amazônia, e os ambientalistas chiam, a resposta é algo do tipo: "Mas do que vocês estão reclamando?  É energia LIMPA!"  Como se meio ambiente se resumisse a um cálculo de carbono.

Por último, mas não menos importante, a jóia da coroa chamada Petrobras é intocável e vai continuar intocável por um prazo a perder de vista.  A rigor, dá pra falar de desenvolvimento limpo com a euforia em torno do pré-sal? Não dá.  E essa é uma briga que apenas se insinua.  Conclusão: as minhas fichas estão na Amazônia.  Num país pretensamente diferenciado em perfil energético, as armadilhas são muitas.  A jornada é longa e promete muita turbulência.






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Balaio


Por Carolina
Derivi

Carolina Derivi tem 25 anos e é repórter da revista Pagina 22. Durante seus "verdes anos", foi ativista pelo cerrado na Chapada dos Veadeiros (GO). Foi repórter do site Amazonia.org.br e é autora do livro-reportagem "De quem é esse rio?" sobre a polêmica acerca do complexo hidrelétrico do rio Madeira (RO). Acha que o barato do jornalismo ambiental são as boas histórias, e do desenvolvimento sustentável, as boas idéias. Aqui, discorre sobre os rumos do meio ambiente, especialmente na Amazônia brasileira.
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