Os argumentos favoráveis e contrários a que Copenhague seja a etapa definitiva das negociações climáticas parecem equivalentes em sensatez, apesar de apontarem direções opostas para o mesmo problema. Por isso, em lugar de apoiar um ou outro lado, exponho aqui um modesto resumo de ambos. E você escolhe no que acreditar.
Adiar o acordo – O argumento mais simples e evidente é que sem o G2 (EUA e China), juntos responsáveis por 40% das emissões globais, não adianta decidir nada. Obama pode prometer o que quiser, mas não pode garantir compromissos internacionais sem a chancela do Senado, que sentou em cima da legislação climática americana e não dá sinais de arredar.
Além disso, há tempos analistas sérios vêm denunciando que a tentativa de inaugurar um acordo multilateral altamente complexo, com instrumentos de execução inéditos, é uma utopia. O que mais me marcou foi o geógrafo bitrânico Mike Hulme, autor do livro Why We Disagree About Climate Change. “De certa forma, Copenhague tentará resolver todos os problemas do mundo”, disse ele. O que está em pauta não é só a mudança do clima, mas a desigualdade global, ponto de partida para a distribuição de responsabilidades e para a transferência de tecnologia e recursos dos mais ricos para os mais pobres.
Embora as conversas sobre clima na arena internacional tenham mais de trinta anos, é recente a noção de que o “bloco em desenvolvimento” virou peça chave. Um adiamento para 2010 daria mais tempo aos emergentes para digerirem a sua nova posição no problema, em prol de um acordo robusto e factível.
Por fim, a situação que vivemos agora é muito parecida com a de Kyoto, e há quem diga que o mundo precisa aprender com os próprios erros. Kyoto também nasceu na correria imposta pelo Mandato de Berlim (COP 2, 1995), que estabelecia o ano de 1997 como prazo para o protocolo. Sem o amadurecimento das negociações, o resultado foi um acordo considerado inócuo, e também concluído na 25ª hora. E olha que Kyoto envolvia apenas 47 países. Agora são 192.
Não adiar o acordo – Aqui entra o argumento da sustentabilidade: estamos na beira do precipício. Basta olhar o orçamento de carbono, apresentado pelo IPCC, igualzinho a um orçamento doméstico. Temos 1800 Gt (1 gigatonelada = 1 bilhão de toneladas) de carbono para gastar neste século. Só nesta primeira década, quase 500 Gt já foram para a atmosfera. O mundo emite uma média de 45 Gt por ano. Para evitar os piores cenários, seria necessário emitir menos de 10 Gt na segunda metade do século. Conclusão: não existe transição suave. A única resposta à crise climática que interessa é uma queda dramática de emissões.
E aí, embora o mundo de hoje tenha outros níveis de governança, e ações independentes por setores da economia possam ser eficientes e mais fáceis de realizar, parece que a única instância capaz de impor a mudança na velocidade necessária é a dos Estados Nacionais.
Neste ponto de vista, como costumava dizer o premier da Dinamarca, Lars Rasmussen, “não existe plano B”. Além disso, quem se der ao trabalho de analisar o histórico das COPs desde 1994 verá que a decisão mais comum é estabelecer prazos para tomar a decisão. Ou seja, chuta pra frente. Inclusive em 2007, quando o mundo viveu o primeiro boom de preocupações e debates em torno da crise climática, os países acordaram uma série de princípios gerais (O Mapa do Caminho de Bali – COP13) e marcaram dois anos de prazo para que definissem as ações e os compromissos quantificáveis em Copenhague.
Dois anos se passaram e a negociação avançou muito pouco. Surpresa: os líderes querem mais tempo. Grosso modo, parecem querer repetir o que já foi feito em 2007. Sobre os EUA em especial, vou com o que disse Miriam Leitão: “governar é estabelecer prioridades”. Se Obama não consegue aprovar a lei de clima no Senado, onde tem maioria democrata, que tivesse se esforçado mais. Ainda por cima, teme-se que adiar o acordo signifique aliviar a pressão sobre os principais responsáveis. Momentum é o nome de 2009.
O homem, desde quando apareceu na Terra, modifica o ambiente em que está inserido: seja para conseguir se proteger da chuva, caçar ou, até, plantar para seu próprio sustento. O ambiente a sua volta está em constante mudança. Isso, porém, não significa que seja sempre predatório. Pelo contrário.
Quando há chuvas, pode haver alagamentos, que modificam o solo da região. Quando há ventanias, árvores são tombadas. Quando há geadas, diversas espécies de plantas são danificadas. Teoricamente, é o ciclo natural dos seres vivos, com a natureza atuando em um ecossistema repleto de biodiversidade (não é à toa que James Lovelock considera o planeta como um ser vivo também).
A progressão de crescimento da população, porém, trouxe à própria sociedade a ideia de que a ação do homem deixou de ser natural, para se tornar algo invasivo ao meio ambiente. Sempre. Árvores são cortadas para dar lugar a prédios. Rios são soterrados ou canalizados para que cidades consigam se expandir. Plataformas são criadas no meio do oceano para extração de matéria-prima a milhares de quilômetros abaixo da terra.
O homem, agora, modifica brutalmente a paisagem em que está inserido. O fotógrafo norte-americano Edward Burtynsky anda pelo mundo coletando imagens de exemplos de como a ação do homem está fabricando a paisagem do mundo. A foto acima, por exemplo, demonstra a troca de uma área de pradaria por centenas de máquinas extrativistas de petróleo.
Há uma outra paisagem, porém, que foi criada pelo homem e que pode ajudar a transformar o mundo - aliás, já o está transformando. A sociedade agora está mais em rede do que nunca, graças à conectividade à internet. E essa tecnologia, como qualquer outra, é ambivalente: pode ser usada tanto para melhorar, quanto piorar o mundo.
O blog Paisagem Programada mostrará como essas novas tecnologias podem ser usadas para um fim social. São diversas iniciativas, pessoas, informações e tudo que envolve este mundo tecnológico que tentam e pregam a mudança na paisagem atual, de forma ordenada e racional - como códigos binários. O mundo conectado é extremamente versátil, modular e adaptável às necessidades do mundo - ao mesmo tempo que demanda outras necessidades.
Hoje, modelos de negócios estão sendo reformulados pelos conceitos e morais espalhados pelo ciberespaço. Novas formas de relação entre sociedade civil e candidatos à presidência surgem graças às demandas da sociedade. Questiona-se a própria forma de se questionar - e organizar.
Muitas ações que são produzidas no mundo digital visam modificar - para melhor - o mundo real. Só cabe a nós programarmos nossa própria paisagem da forma que desejamos.
E sejam benvindos!
Outros links
Edward Burtynsky - http://www.edwardburtynsky.com/
Sociedade em rede - http://pt.wikipedia.org/wiki/Manuel_Castells
Novos modelos de negócios - http://portalliteral.terra.com.br/lancamentos/tecnobrega
Novas formas de relação - http://www.barackobama.com/