03/07/2009
Uma mãozinha pra quem usa as pernas
Acho incrível quando uma solução para reciclagem de materiais acaba se transformando em um novo produto que dá suporte para outras questões ecológicas. A sensação de unir o útil ao agradável foi o que senti quando um amigo comentou das Zebras Separadoras de Tráfego produzidas pela espanhola Zicla. Dessa idéia, meu vizinho de blog, Thiago Guimarães, vai gostar.

Trata-se de peças produzidas a partir da reciclagem dos plásticos de cabos elétricos e outros plásticos como o PVC. Estão sendo testadas em algumas cidades da europa para tornar mais segura a divisão entre as faixas de carros e as de bikes. O produto tem características interessantes para melhorar a vizibilidade e chamar atenção, como as listras dispostas de forma irregular em sua estrutura.

Além de promover mais segurança para os bikers, que já decidiram se locomover de forma menos impactante ao meio ambiente, o produto se destaca por poupar 5,7 kg de CO2 na produção de cada peça pois utiliza matéria reciclada e não matéria virgem.

Para você ter uma idéia de como o produto tem uma proposta ecológica interessante, basta uma conta simples. Para isolar uma ciclovia com extensão de 1km, seria necessário instalar aproximadamente 650 peças, o que poupa algo próximo de 3,7 toneladas de CO2.
03/07/2009
Parto sem médico é seguro?
Assim resumo a pergunta que a Samira deixou no post anterior. Ela alerta para o fato de que antes, quando médicos não acompanhavam partos, os índices de mortalidade eram muito mais altos que hoje. E isso não dá para negar. Mas temos que lembrar que nesses tempos o pré-natal também não existia. Nenhum especialista acompanhava a gravidez para identificar possíveis fatores de risco antes do parto.

Noventa porcento das causas de mortalidade materna podem ser previstas e evitadas pelo pré-natal. E nos 10% de chance de problemas que só aparecem no momento do parto, ainda é possível procurar um médico. Segundo Marsden Wagner, quando foi responsável da Organização Mundial de Saúde (OMS) pela Saúde Materna e da Criança na Europa, colocar um obstetra para acompanhar um parto saudável é o mesmo que contratar um pediatra para cuidar de uma criança que aprende a andar, um tremendo desperdício.

Aliás, a OMS registra claramente que o mais seguro para um parto de baixo risco é a assistência de uma enfermeira obstetriz. Intervenções médicas feitas sem necessidade em partos saudáveis podem gerar outras intervenções e seus consequentes riscos. Uma mulher que recebe hormônio sintético para aumentar contrações, por exemplo, pode não suportar a dor e pedir uma dose alta de anestesia. A anestesia pode atrapalhar a participação ativa da mulher na expulsão do bebê e exigir o fórceps, e assim por diante. Sem contar os malefícios de uma cesárea feita sem necessidade.

E pra não deixar dúvidas de que parto de baixo risco é mais seguro sem um médico por perto, publico dados que a parteira Mary Zwart relatou à Folha de S. Paulo: na Holanda, onde 70% dos partos normais são assistidos por parteiras, o índice de mortalidade materna é dez vezes menor que o do Brasil, onde 77% dos partos são acompanhados por médicos. Espero ter respondido, Sá. E obrigada pela chance de aprofundar o tema :)
02/07/2009
A nova economia de São Paulo
Como todo mundo sabe, com a dobradinha crise financeira/eleição do Obama nos Estados Unidos, a era da economia ditada pelos leves, livres e soltos mercados financeiros está no fim. Em São Paulo, é até capaz que ela já tenha acabado e a gente nem percebeu. Tanto é que o discurso "coração econômico da América Latina" já está ficando para o passado. Ou quem é que acredita ainda no papo de São Paulo como candidata a cidade global? Muito mais importante é o aqui-agora da metrópole. Por isso, publico aqui meus até então secretos rascunhos de uma utopia: a utopia da economia do vai-e-vem.

Essa nova economia se assenta em escala local e regional e, ao contrário da outra, tem base em uma realidade bastante concreta, palpável a qualquer cidadão. Tem seus alicerces na escassez de espaço físico e na limitada capacidade de deslocamento de bens e pessoas - fato incontestável sobretudo a partir dos quase 300 quilômetros de congestionamento registrados pela CET no mês passado. Tem uma dinâmica bem diferente da "velha economia", que havia sido revolucionada pela internet. Os small talks em Wall Street e os burburinhos entre gente de negócios perdem importância. Essencial é saber quem e como se pode, agora e efetivamente, realizar determinado movimento (por exemplo, a entrega de um produto, a ida para uma reunião) dentro de um intervalo de tempo. E principalmente: é inteligente realizar essa entrega ou essa reunião nesse momento? Elas são realmente necessárias?

Em outras palavras, o capitalismo global do tipo cassino está com seus dias contados e sairá logo de cena; entra em cena o "capitalismo da mobilidade". Nesse sistema econômico, cuja dinâmica gira em torno da mobilidade ou da imobilidade, entram em cena novos indicadores e outros perdem importância. Acompanhe aqui a dança dos índices do passado para o futuro.

Antes era o dólar, hoje é o tíquete de metrô que pode ser adquirido pelo preço oficial ou no mercado negro. De uns tempos para cá também tem seu preço cotado na versão "turismo".

Acompanhar dia a dia a evolução do preço de ativos como o ouro fica para o passado. Queremos, agora, saber quanto custam, em tempo real, os combustíveis. Seus preços dependem das flutuações do preço do petróleo, do biodiesel, da energia elétrica, do hidrogênio ou seja lá o que for, dados seus estoques e as promissoras inovações tecnológicas no setor.

O índice de congestionamento fornecido a cada meia hora pela CET substitui o índice Bovespa. Aqui, até o jargão já se adaptou: sobe, desce, tendência de alta, tendência de baixa, média histórica, patamar psicológico...

Nessa nova economia, o bilhete único metropolitano (válido para os 39 municípios da Grande São Paulo) é a instituição que representaria, hoje, a OMC. A cidade que está dentro participa do intercâmbio, joga o jogo das vantagens comparativas do intercâmbio com os parceiros. Quem fica de fora se isola.

Já a ONU teria seu papel espelhado em uma agência metropolitana de planejamento e gestão. Uma estrutura difícil, que ainda está para ser arquitetada em São Paulo. (Aliás, do jeito que a coisa anda, até acho que um Conselho de Segurança nesta instituição não seria má idéia.)

Por fim, ninguém mais dará tanta importância para o humor do mercado financeiro. Relevante, agora, é aquela velha conversa de elevador em bom português no começo do expediente: "Ave, mas que trânsito insuportável na Radial!"
02/07/2009
Sustainomics: uma saída para o caos global

Todos os olhares estão voltados para as mudanças climáticas neste momento, mas o planeta enfrenta uma série de problemas socioambientais – pobreza, negligência em relação aos direitos humanos, corrupção, crise econômica, escassez de recursos naturais e perda da biodiversidade estão entre eles.

“Não dá para resolver um problema de cada vez, não há tempo para isso”, afirma
Mohan Munasinghe, vice-presidente do IPCC - Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas e ganhador do prêmio Nobel da Paz de 2007, que defende o combate à pobreza e às mudanças climáticas simultaneamente.

Ele argumenta que os países pobres são os que mais sofrerão com os efeitos do aquecimento global e lembra que foram investidos U$4 trilhões para salvar os Estados Unidos da crise financeira, mas apenas U$100 bilhões são necessários para acabar com a pobreza no mundo. Munasinghe diz que proteger os países mais vulneráveis deve ser uns focos da 15ª COP – Conferência das Partes, da ONU, que acontece em Copenhague no final do ano e definirá ações para conter as mudanças climáticas.

Na opinião do Nobel, para começar, seria necessário usar o pacote financeiro para investimentos de longo prazo nos setores de energias renováveis e florestas e no desenvolvimento social. Munasinghe diz que em vez de pensarmos apenas em um G20 – o grupo de 20 países industrializados e em desenvolvimento focados em questões econômicas –, seria importante aliar forças de um C20 – composto por líderes da sociedade civil (civil society leaders) – e de um B20 – formado pelos líderes de negócios (business leaders).

As ideias fazem parte de um conceito criado pelo próprio Munasinghe: o Sustainomics, que integra meio ambiente e desenvolvimento social à questão econômica, pensa em soluções do tipo “ganha-ganha” e defende que a atuação para a resolução dos problemas globais está na transdisciplinaridade – unindo ciências naturais, sociais, engenharias e humanidades. “Precisamos transpor as barreiras, pois a saída não vem da medicina, da lei ou da economia sozinhas”, diz.

Também é objetivo do Sustainomics conciliar os problemas dos países pobres – como promoção de desenvolvimento, consumo e crescimento, redução da pobreza e igualdade – com os dos países ricos – como redução dos recursos naturais, poluição, crescimento populacional e econômico insustentável.

O conceito só prova que todos os elementos que compõem o planeta estão, de fato, conectados e que o segredo está em enxergar a vida como um todo integrado e não como partes fragmentadas.

01/07/2009
Pobreza e meio ambiente
Há alguns dias, entrevistei Nereide Mazzucchelli, consultora em desenvolvimento local e meio ambiente, que levantou uma ideia muito interessante: será que não deveríamos ter uma “licença social” para grandes projetos de exploração de recursos naturais, assim como já temos a licença ambiental?

Grande parte dos impactos polêmicos que saem nos jornais e atrasam obras e geram reações judiciais que podem durar anos não são ambientais, mas sociais.

No caso das hidrelétricas do rio Madeira, o problema que ficou mais famoso foi o dos peixes migratórios, já que o presidente reclamava que “jogaram o bagre no colo dele”. Mas um empreendimento desse tamanho tem de lidar com os efeitos sobre as terras indígenas, as formas de realocar as populações atingidas e, acima de tudo, o problema das migrações em massa para onde os empregos estão sendo gerados.

Para isso, diz Nereide, não há roteiros e procedimentos pré-estabelecidos. Não tem órgão licenciador, enquanto o Ibama tem de tratar de questões alheias ao seu expertise. E as questões sociais seguem a reboque das ambientais.

Para mim, a cada vez que dizemos que o meio ambiente é um nó no Brasil, estamos fazendo uma presunção baseada no licenciamento ambiental, que é onde se dão os embates. Mas a pecha ambiental encobre uma boa parte da história.

Todos (órgão ambientais, empreendedores, gestores públicos) ainda têm muita dificuldade de lidar com as implicações sociais dos rumos do progresso. Ou daquilo que se entende por progresso. Mesmo com tantos pesquisadores há décadas apresentando estudos que comprovam sempre o mesmo padrão na Amazônia. Numa região em que quase a metade da população vive abaixo da linha da pobreza, sem alternativas de renda, uma mega obra sempre atrai migração descontrolada.

É o mesmo para hidrelétricas, para mineração, para estradas. Sigo vendo prefeitos e secretários extasiados com a possibilidade de um empreendimento gigante trazer desenvolvimento para locais empobrecidos, sem nunca perceberem que, se as localidades crescerem demais sem planejamento, eles podem ficar ainda mais pobres do que estavam de partida.

Muita gente se apavora com a possibilidade de mais burocracia. Mas me alegra que a ideia de “licença social” pelo menos insista em levantar questões esquecidas.
30/06/2009
Trabalho de formiguinha
Recentemente, conheci duas pessoas muito especiais. Em comum, elas têm o dom de semear árvores na cidade, num trabalho de formiguinha que, com a ajuda do tempo, vira um presente para todos. Um é o artista Rubens Matuck, morador da Vila Madalena, em São Paulo, onde já plantou mais de 2 mil árvores em ruas e praças do bairro.

Seu ateliê é um mix de aquarelas delicadas, cadernos de viagem, viveiro de mudas, biblioteca de árvores brasileiras e museu vivo de sementes de diferentes regiões do país e do mundo.

O outro é o Hélio da Silva, executivo da Native (fabricante de alimentos orgânicos), morador da Penha. Praticamente sozinho, ele transformou a área degradada à beira do córrego Tiquatira no primeiro parque linear da cidade, um lugar bem agradável para o lazer e as caminhadas. Lá ele plantou mais de dez mil árvores, de 152 espécies.

Para mim, o Rubens e o Hélio são heróis urbanos, que não usam roupa de super-herói, não têm poderes mágicos nem foto publicada na capa dos jornais. Eles são como as personagens que leio na seção Local Hero da revista inglesa Ecologist: gente comum que doa trabalho e tempo para melhorar o lugar em que vivem. Como eles, existem muitos outros por aí, que preferem ser formigas discretas, ativas, gandhianas. São estrelas que nos inspiram.

Em tempos tão agitados, difícil é ter tempo e sintonia para perceber a presença desses heróis singelos. Porque eles não fazem alarde e não têm assessor de imprensa. Apenas fazem o que acham que tem que ser feito. E de coração. Simples assim.

Acho que por trás disso mora a ideia de que um exemplo vale mais do que mil palavras ou um discurso articulado. Ah, sim, e também o fato de que uma formiga mais algumas tantas formigas formam um formigueiro poderoso. Em resumo, mesmo a ação mais singela, quando somada a outras semelhantes, torna-se grandiosa. Já ouvi muita gente dizer que não separa o lixo e não economiza no banho e na energia porque o vizinho também não faz e ele sozinho não vai mudar nada. Ai, ai. Enquanto pensarmos assim, nada vai mudar mesmo. É preciso ter paciência, pensar no longo prazo, fugir do imediatismo. Acreditar. Confiar. Agir sem esperar resultados.

A mídia não ajuda quase nada nesse sentido. Aliás, acho que ela mais atrapalha do que ajuda. Herói é aquele malandro que se dá bem na vida, é o cara malhado que salva a mocinha do perigo, o executivo que só anda de carrão, a mulher que chefia uma equipe de 50 homens ou se mantém com pique de 20 aos 45 anos. Esses são os heróis dos filmes modernos, das novelas e dos telejornais.

Mas eu queria aqui ressaltar o valor dos heróis anônimos, humanos, imperfeitos. Esses são os verdadeiros, os autênticos. É deles que precisamos para restabelecer o equilíbrio do planeta. Não de gente que tem status pelo que consome, mas de gente que tem voz porque tem atitude. São os agricultores familiares que migram a produção orgânica, os catadores de recicláveis que descobrem o valor de seu trabalho, os plantadores urbanos, os ciclistas, os voluntários de mutirões de casas populares, as mulheres artesãs que resgatam a cultura de seus ancestrais. Esses sim são heróis de verdade, na vida real, sem Orkut e sem plano de marketing.

Da próxima vez que tiver um tempinho para passear pela cidade, procure identificar alguns heróis-formiguinhas que estão perto de você. Observe-os, inspire-se e acredite nos pequenos passos. As grandes jornadas sempre começam com um primeiro passo. (Pelo menos foi o que li num livro sobre peregrinos em busca de lugares sagrados na Terra...)

29/06/2009
Você faz a cidade

Foi lançada há pouco tempo uma iniciativa na Internet que facilita a interação dos cidadãos com os órgãos públicos. O funcionamento é bem simples: o usuário escreve sobre um determinado assunto – um problema no bairro, por exemplo --, podendo anexar mapas, fotos e documentos ao texto.O próprio site envia a reclamação (ou proposta) ao órgão público competente e cobra uma resposta. Outras pessoas podem comentar o tópico e, melhor ainda, apoiá-lo. 

Eis o pulo do gato: o fórum está longe de ser apenas uma página web para reclamações sem conclusões concretas. Há acompanhamento, envolvimento e interação entre os usuários, a equipe do site e os órgãos públicos.

A ferramenta é uma criação do Urbanias, um portal que trata de assuntos relacionados às cidades. O projeto busca disponibilizar informações de interesse público de forma integrada às tecnologias de comunicação e mobilidade que acompanham a vida nas cidades.

O portal oferece ainda um aplicativo bem bacana para saber das últimas notícias do trânsito via Twitter (@urbanias nomeda via) e MSN (adicione msn@urbanias.com.br e pergunte o nome da via). 

A idéia realmente chegou para chacoalhar o empreendedorismo individual através do espírito colaborativo de nosso tempo. Vale a pena conferir.

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